Estudos do Tarot – O Diabo

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A carta O Diabo no Tarot de Rider Waite

Também podendo ser conhecido como A Paixão, no Arcano O Diabo nos encontramos com o nosso lado mais carnal. Com nossas tentações, vícios, vontades materiais e ambições desmedidas.

Levando em sua iconografia signos que aprendemos culturalmente a associar a maldade e as forças ocultas, neste Arcano passamos por lições e testes essenciais para nossa evolução a um estágio mais harmonizado com nossa própria natureza e com o mundo ao nosso redor.

De todas as formas que temos de representar esse Arcano, nos mais variados estilos de baralhos, veremos que alguns pontos tendem a se repetir, como por exemplo:

  • Sempre existe uma figura com chifres.
  • Esta figura muitas vezes será meio animal e meio humana.
  • Muitas vezes será alada, com asas de morcego.
  • É comum que existam pessoas acorrentadas aos seus pés.
  • As cores serão escuras.
  • Sempre será o Arcano de número 15.
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Diferentes representações da carta O Diabo no Tarot Egípcio, no Tarot de Rider Waite e no Tarot Mitológico (na figura do deus Pã)

O Demônio, o vilanizado, o bode expiatório. Aquele que carrega a culpa pelas mazelas que nós mesmos causamos. Onde depositamos toda nossa podridão, depravação e sujeira porque seria difícil demais as admitirmos em nós mesmos. No Arcano do Diabo temos contato com o aspecto mais rude, cru e instintivo tanto da humanidade, que tanto dela quer se afastar em nome de uma pretensa superioridade, quanto também de toda a natureza em si.

No Tarot Mitológico o temos como Pã, filho do deus Hermes e da ninfa Dríope. Conta sua mitologia que, ao nascer, ele foi desprezado por sua própria mãe, por ter nascido com uma aparência extremamente assustadora, com chifres, cauda e patas de bode. Seu pai, um pouco mais clemente, o levou para o Olimpo, onde ele passou então a entreter os deuses. Sendo senhor de todos animais e de toda vida selvagem, ele assombrava os bosques e parques, simbolizando a fertilidade de uma natureza indomável. De seu nome vem a origem da palavra pânico, derivando-se do fato dele se divertir o causando nos caçadores que adentravam em seus domínios sem o devido cuidado.

Dentro do movimento histórico de expansão do cristianismo, e da supressão e perseguição por eles praticada contra todas outras expressões de religiosidade, veremos signos de diversos deuses ligados a natureza primitiva sendo usados para compor a imagética do Diabo cristão, e um dos deuses mais usurpados foi justamente Pã. Seus chifres, sua aparência peluda, meio bode e meio humano, foi larga e desonestamente usada como a aparência do grande adversário da divindade cristã. Representando uma sexualidade vívida, e uma natureza que não se curvava perante o domínio da mão humana, o que ele trazia era justamente o que a moral cristã tentava reprimir. Em todos séculos onde a Igreja Católica estendeu politicamente seu domínio fomos afastados tanto da sacralidade da própria natureza quanto da noção saudável das nossas próprias sexualidades. Sendo renegado as camadas mais profundas dos nossos subconscientes, através do medo da e culpa, estes temas no entanto nunca morreram, apenas adormeceram em nós, esperando que um dia despertássemos para eles novamente.

No Arcano do Diabo nos deparamos com tudo que, pela carga ainda pesadamente cristã de nossas culturas, tememos. Bem como também com todas compulsões que detestamos ter. A vergonha que temos de nossos próprios corpos, a culpa e o medo que sentimos de certos impulsos sexuais, a repulsa que nosso lado amoral pode nos causar, nossos bloqueios, traumas e complexos aqui são colocados a frente. A dificuldade que temos em encontrar uma expressão do divino mesmo em nossas partes mais vergonhosas é o nosso desafio ao entrarmos nas cavernas de Pã. É muito fácil achar santidade no que temos de mais sublime, na face que gostamos de mostrar para a sociedade. Mas também não seria sacro, não seria uma expressão normal e pura da natureza, nosso lado menos higienizado e domado? Até onde vamos, o que somos capazes de fazer, por nossa incapacidade em lidarmos com nossa própria natureza?

O lado negativo

Sim, todos os Arcanos do Tarot tem sua parte difícil. O Arcano do Diabo não é, em si mesmo, inerentemente negativo, apesar da complexidade dos temas que traz. No entanto, dependendo das cartas adjacentes, ele pode nos dar conotações de vilania, violência, ciúmes, traições, mentiras e desonestidade. Bem como, em certos aspectos, ele denuncia o quanto estamos sendo falsos com nós mesmos, fingindo ser quem não somos, forçando nossos sorrisos, por medo de admitirmos quem somos de verdade.

No amor

Aqui temos a expressão mais carnal do amor. Sexo, paixão, vontade de dominação, tudo isso é trabalhado pelo Arcano do Diabo. Para aqueles que estão comprometidos é hora de tomar cuidado com as tentações. Bem como, em conjunções mais sombrias, se ter muito cuidado para não entrar em dinâmicas abusivas. Seja como abusador ou até mesmo como vítima. Para os solteiros O Diabo traz os excessos. As farras, as bebedeiras, os vícios. Muito cuidado para não se deixar escravizar pelas suas próprias paixões.

Na sexualidade

Trazendo os aspectos humanos tidos como inferiores, o Diabo traz o apetite sexual grosseiro e não civilizado. Aqui temos a lascívia, os desejos não compreendidos e desordenados, tudo que é considerado vergonhoso e sujo. Os fetiches ocultos, os casos secretos, os impulsos escondidos e a animalidade. O perfil que se marca por este Arcano, quando não bem resolvido, costuma ser perigoso por não ver o sexo como algo saudável e sagrado, mas sim como um simples impulso bestial que precisa ser saciado sem sentimentalismo algum. Ele trairá sem nenhum peso na consciência. Usará todos os meios imorais que estiverem ao seu alcance para se valer com total insensibilidade as necessidades alheias. Aqui temos frivolidade e inconsequência. Os ninfômanos, os incestuosos, os sádicos, todos se encontrarão neste Arcano.

No trabalho 

Sendo uma carta geralmente boa no que se refere a finanças, o Diabo realça em nós nossas ambições. Podemos lidar com elas de forma positiva, nos relacionando saudavelmente com o dinheiro e lutando com garra pelas conquistas que desejamos, ou podemos nos cegar pela nossa ganância, não vendo limites para alcançarmos o que queremos. Seja ético, não se envolva em nada ilícito, por mais sedutor que possa parecer num primeiro momento. Saiba se portar e se dirigir sempre com equilíbrio, e tudo irá caminhar bem.

Na saúde 

O Diabo geralmente traz casos confusos, onde é difícil termos o diagnóstico correto. Ele nos aconselha a cuidarmos do nosso corpo de forma mais equilibrada e lúcida, para não cairmos nas garras das consequências negativas dos nossos próprios erros e teimosias. Se você está com problemas respiratórios, sabe que não deve fumar, se tem diabetes, sabe o que deve ou não consumir, seja consciente consigo mesmo. Regendo também nossa garganta e cordas vocais, aqui nos deparamos muito com problemas relacionados a esses locais como formas que nosso corpo tem de expressar nossos conflitos interiores mal resolvidos. Aqui entram doenças como amigdalite, faringite e similares.

Na espiritualidade 

O exercício espiritual do Diabo é, antes de mais nada, um exercício de honestidade e de humildade perante si mesmo. Em algum momento todos teremos que enfrentar nossas próprias profundidades, encarar nossas complexidades, e por mais difícil que seja, precisamos nos dar conta de que somos apenas humanos. Todos temos dentro de nós tanto luz quanto sombras, e precisamos de ambas para crescermos, com consciência, com equilíbrio, com clareza. Demonizarmos a nós mesmos ou a terceiros não nos levará para nada além da nossa própria dor. Toda energia que gastamos para prendermos o Diabo em sua caverna, longe e distante de nós, vergonhoso e proibido, é uma energia que perdemos inutilmente, desperdiçando grande parte da riqueza que possuímos em nossas personalidades e história. Nos libertarmos dos preconceitos, da intolerância, do falso moralismo, sempre nos concede poder e leveza. A verdadeira liberdade só pode existir quando não escravizarmos nem a nós mesmos e nem a mais ninguém pelo que não compreendemos e aceitamos em nós mesmos.

E você, como lida com suas próprias sombras?

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