Um pouco sobre eclipses

Carta A Lua do Tarot de Marselha – Fonte: Arquivo pessoal

Eclipses, no cenário ocultista que temos contemporaneamente, são eventos que dividem opiniões. Sempre nos dias que antecedem um deles temos de um lado aqueles que não trabalham com eles e do outro os que trabalham. Os argumentos variam muito dependendo de vertente para vertente. Como praticante de bruxaria, tenho minhas opiniões sobre o assunto, e minhas experiências pessoais também. São elas que colocarei aqui, de forma não a configurarem uma verdade absoluta, mas a apresentarem um ponto de vista. E, ao contrário do que pode parecer natural, meu discurso não começará comigo falando como a bruxa que sou hoje, mas sim como a jovem que eu fui antes que a bruxaria entrasse na minha vida.

É comum entendermos os fins pelos começos, e eu entendo como minha espiritualidade se desenvolveu da forma como se desenvolveu através dos anos quando olho para a criança que fui, conversando com as árvores da minha vizinhança, com o sol e a lua, correndo em redemoinhos de vento junto com os pequenos seres que os adultos julgavam na época que eram meus amigos imaginários e tratando o mar como se ele fosse um ser por si só. Depois, conforme fui crescendo, com minha habilidade de “conversar com o céu” para ele segurar a chuva enquanto eu estivesse na rua, voltando da escola, porque tinha esquecido o guarda-chuva naquele dia e em como eu agradecia quando realmente só começava a chover depois que eu abria o portão de casa. Em como minhas explosões de raiva na adolescência sempre traziam tempestades, assim como acontecia com a minha avó. E em como eu fui tendo sonhos premonitórios com cada vez mais frequência assim como minha mãe e meu avô podiam ter.

A espiritualidade na minha família sempre foi muito forte, mas muito sutil ao mesmo tempo. E eu aprendia com eles a vivenciar as coisas de forma discreta para evitar comentários ou mesmo preconceito. Nada era tido como magia ou como bruxaria, afinal, eles eram em sua maioria cristãos, mas sim como dons do Espírito. De certa forma meu primeiro grimório foi a Biblia, e assim continuou sendo por muito tempo. Eu só comecei a pesquisar e a ler sobre bruxaria em 2014, com 22 anos. Não fui então uma adolescente que procurou sobre magia ou ocultismo, sempre consegui me comunicar com o mundo e manipular suas energias sem sair da base de crença da minha família. Foi apenas por forte necessidade que saí da minha zona de conforto para campos desconhecidos. No começo, tudo foi incrivelmente confuso. Não só pelo fato de que eu estava conhecendo novas crenças e paradigmas mas também porque muita coisa não se encaixava com a maneira como eu experienciava a natureza desde criança. E os eclipses eram o maior destes pontos.

Sempre tive uma relação muito forte com a lua. Forte a ponto de ter minha noção própria de correspondência de suas fases apenas observando seus efeitos no mundo ao meu redor e em mim. Eu sabia que quando ela estava crescendo eram os dias em que eu mais tinha sorte, que quando ela estava cheia tudo se tornava mais intenso e violento e que quando ela minguava ou sumia do céu eram os períodos onde eu tinha mais azar. Os eclipses eram absolutamente horríveis. Se eu pudesse desaparecia da face da terra nos dias em que algum acontecia. Não só tudo dava errado como psicologicamente eu passava por grandes abalos. De forma que quando comecei a ler sobre vertentes modernas de bruxaria, dentre elas a Wicca, eu até consegui pegar o conceito da utilização das fases da lua (geralmente lua nova para abrir caminhos e começar coisas novas, crescente para prosperidade e fazer coisas crescerem, cheia para intensificação e minguante para banimentos) mas nunca a forma como tratavam os eclipses como portais energéticos para causar mudanças ou até mesmo realizar desejos.

Eu lia autor após autor, livro após livro, via a animação das pessoas nos grupos em que eu participava e as discussões sempre para se fazer algum ritual especial e me animava para participar também. Não dava para negar que era um evento que trazia um fluxo de energia muito intenso. Se bem trabalhado podia render de fato grandes resultados. A visão wiccana de se ter o Sol como o Deus e a Lua como a Deusa eram a base do discurso, portanto eclipses eram a união das duas polaridades, do feminino e do masculino. Muito se fazia para celebrar ambas polaridades, para fazer feitiços de amor, de prosperidade, proteção e algumas vezes limpezas também. A escuridão momentânea do céu era tida como um ponto onde tudo se desligava no mundo por alguns instantes para que logo após a luz voltasse, assim sendo interpretado como um momento que podia ser usado para causar um antes e depois, uma mudança em alguma coisa, como se fosse um botão de reiniciar. Resolvi dar algumas chances para essa abordagem então. Podia ser só cisma boba minha no final das contas e talvez eu tivesse boas surpresas se me permitisse tentar.

Comecei a fazer pequenos rituais com cuidado, e observar se teriam resultados ou não. Em todas as vezes nada acontecia. Repare bem que eu não digo que me aconteciam coisas ruins, ou que acontecia o oposto do que eu tinha intencionado, mas que nada acontecia. Para alguém que, independente de crença, sempre conseguiu falar claramente com o mundo e ter respostas fluidas e positivas aquilo era estranho. O silêncio era estranho. A falta de resultados era estranha. Comecei então a procurar outras abordagens, outras vertentes, e vi quanta diversidade existe dentro do ocultismo em relação a como ver e se relacionar com eclipses. Geralmente quanto mais recente e moderna é a vertente, mais a sua postura é a de se trabalhar sim com o evento e mais positivamente eles são tratados. Existe uma cisma muito grande entre a abordagem moderna e as mais antigas e tradicionais.

Conforme fui estudando outros pontos de vista fui aos poucos tentando diversificar o que eu fazia. E os únicos e raros rituais com a energia dos eclipses que eu fiz e que deram certo dentro da minha prática foram os poucos que eu fiz enquanto aprofundava meu trabalho dentro da Mão Esquerda. Estes trabalhos foram completamente distintos dos meus primeiros quando minha visão ainda era muito guiada pelo paradigma da Wicca. Ali eu já estava trabalhando não apenas com as polaridades masculina e feminina mas com forças de destruição. Eu estava desenvolvendo meu conhecimento sobre demonologia e sobre as Artes Negras e usava o que estudava sobre astrologia para identificar quais eram os períodos mais oportunos para diversos tipos de evocações. Foi quando aprendi a não olhar só para em quais signos estariam a lua e o sol durante esses eventos como também prestar atenção em conjunções com estrelas como Algol, a “Cabeça do Demônio” (e uma das estrelas com as quais eu desenvolvi os trabalhos mais fascinantes).

Ali eu senti que as coisas fluíram corretamente. Ali eu falei com o mundo e ele me respondeu como sempre respondeu, de forma natural e positiva. Ali eu senti que era de novo a criança que eu fui, sentada no colo do meu avô, um dos homens mais fortes espiritualmente que eu já conheci, observando o céu e as estrelas com um binóculo, falando de mitos, fazendo anotações, dançando conforme os astros também dançam e nos sussurram o que acontece num nível muito acima do humano. E este ponto, no que se refere a magia astrológica, que fazemos com a força de determinados astros, estrelas e eventos celestes, é importante de se colocar. A maioria das coisas nos céus não são nem sobre e nem para nós. Muitas vezes eventos grandes como um eclipse podem ter efeitos sobre a humanidade, mas nunca de forma individual, sempre de forma coletiva. Como indivíduos, se sabemos como fazer, podemos aproveitar uma pequena parte destas energias para os nossos próprios propósitos. Mas eles em si não atuam numa esfera individual, atuam na esfera coletiva.

Na Astrologia Tradicional, com a qual me alinho, eclipses são sim eventos que apontam para riscos a nível coletivo pois são fenômenos maléficos. É raro que a ocultação da luz, que é um símbolo da vida a da consciência, dos nossos maiores lumiares (a lua e o sol) possa trazer algo de positivo. Podemos arriscar uma interpretação positiva se o evento estiver sendo governado por um planeta benéfico, em condições muito específicas. Mas mesmo assim, sempre através de turbulências. O mapa de um eclipse pode ser válido de poucas semanas a até mesmo anos dependendo da sua duração. E a sua importância depende de como ele irá interagir com outros astros no céu, tendo seus maiores efeitos sempre onde ele de fato é visível. Trabalhar com eles energeticamente traz riscos, porque tudo que fazemos em sua duração não é observado pela luz. Quando temos o enfraquecimento dos doadores de Vida (sol e lua) temos que saber muito bem o que fazemos ou simplesmente não fazer nada.

É muito comum ter dentro da Astrologia Moderna análises de como a energia de um determinado eclipse irá afetar os nascidos de cada signo solar, mas sempre serão análises rasas e superficiais porque toda análise que só leva em consideração signo solar ao invés de se analisar o mapa inteiro de cada pessoa individualmente se marcará por ser raso e superficial. Não somos nem de longe só nossos signos solares. E eventos celestes complexos como eclipses não são tão simples assim de se ler. Se desejamos saber se algum eclipse pode nos afetar individualmente temos que ir até um astrólogo que irá analisar todo nosso mapa e não apenas partes dele. Mas, na maioria das vezes, eclipses trarão eventos sobre governos, sobre a política dos países sobre os quais incide, e não sobre nossas vidas cotidianas. É maior que nós.

A postura de se ser um pouco mais observador do mundo antes de se procurar ser um ator ativo aqui é muito aconselhada. É comum e natural, quando somos novatos, queremos participar de tudo, fazermos tudo, consumirmos todo tipo de conteúdo, irmos na onda e aprendermos por imitação das figuras que mais observamos. Eu fui assim no meu começo. Ignorei minhas experiências anteriores a entrar nos meios que discutiam sobre bruxaria e magia porque queria me misturar ao meio. Seguir o fluxo. E fazer o que as pessoas que eu tinha como referência na época indicavam. Foram experiências válidas? Sim, claro. É testando que vemos o que combina ou não com a gente. Precisamos colocar as informações que recebemos a prova. Mas meu caminho até as práticas que realmente se alinham comigo teria sido mais curto se eu não tivesse ignorado meus próprios instintos e conhecimento anterior em prol do zumbido do meio. Hoje em dia eu não costumo trabalhar com eclipses. Voltando as minhas raízes, apenas me protejo. Se necessário for, por motivos que realmente precisam ser muito específicos, eu posso fazer muito mais. Mas apenas nestes casos. Do contrário você me verá apenas relaxando em casa, pedindo uma pizza e vendo algo na Netflix. É o único ritual que eu de fato indico, para todos, em eclipses. (A não ser que você prefira outro tipo de fast food, claro.)

Quer fazer algo a mais? Não faça só porque você vê outras pessoas fazendo. Pare um pouco, analise, veja como você se sente em relação ao assunto, e só coloque a mão na massa quando você tem certeza do que fará, de como o fará, e por qual abordagem você o fará.

Até a próxima!

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