Primeiros passos – Como identificar grupos abusivos

Fonte: Acervo pessoal

Você sabe quais cuidados tomar e no que ficar atento se quiser fazer parte de um grupo ou de alguma organização de Mão Esquerda? Se não sabe, esse texto é para você. Apesar do foco na Via Sinistra, os cuidados aqui listados podem ser aplicados em qualquer vertente esotérica, abarcando como identificar técnicas de manipulação e controle que podem ser usados para além do disfarce do discurso espiritual, então: vamos lá!

1 – Love Bombing inicial

Também conhecido como bombardeio amoroso, em tradução livre, o love bombing é quando alguém, ou um grupo de pessoas, demonstram afeto e admiração excessivos por um alvo no início de uma relação. É uma tática comum utilizada por narcisistas e cultos para que aquele que está na mira do bombardeio se sinta bem-vindo, amado, valorizado e seguro. É aquela pessoa que parece perfeita demais quando a conhecemos e aquele grupo em que todo mundo nos adora quando entramos nele.

O objetivo do love bombing é criar confiança e subordinação. Ele te faz acreditar que você finalmente encontrou o seu lugar, onde você é acolhido e nutrido, sem que você possa ver nenhum defeito nas pessoas ou na organização ao seu redor. Assim, ele cria três efeitos principais que são a cegueira (”eu conheço fulano, ele nunca faria tal coisa/falaria tal coisa/agiria de tal jeito…”), a obrigação em retribuir (”poxa, ficaria super chato se eu não fizesse tal coisa pelo fulano, afinal, ele me trata tão bem e já fez x e y por mim…”) e a dependência emocional.

O love bombing termina assim que você não é mais uma novidade ou assim que sentirem que você já está completamente envolvido. A partir de então o afeto começará a ser cada vez mais controlado e circunstancial. Inconscientemente, você começará a atender as demandas do indivíduo ou do grupo para voltar a ter aquele nível inicial de amor e carinho, nunca o conseguindo por completo e ficando vulnerável a outras táticas de manipulação.

2 – Dissimulação

Por definição, dissimular é fingir ou disfarçar reais intenções e propósitos. Sujeitos ou organizações abusivas nunca contarão exatamente o que querem. Se você encontrar qualquer pessoa, coven ou grupo que nunca conta exatamente quais são suas origens, nunca dizem claramente o que praticam e no que realmente acreditam, fique de olho. É claro que muitas coisas, quando se trata de conhecimento oculto, só são passadas aos poucos e para aqueles que estão dentro do treinamento interno de determinadas ordens e tradições. Mas se você olhar para um grupo e não der para saber quem são seus líderes, de onde eles vieram, qual vertente seguem, o que praticam e nem o que acreditam alguma coisa está profundamente errada ali.

Grupos abusivos sabem que se você tivesse boas informações sobre eles você nunca se aproximaria, então tudo é feito com muita cautela e com muito sigilo. Isso vale em especial para grupos, dentro da Mão Esquerda, que escondem que são, na verdade, alinhados ao neofascismo ou ao neonazismo. Eles precisam ir te condicionando aos poucos. Aumentando o seu nível de tolerância a ideias extremistas lentamente. Geralmente enquanto também usam táticas de love bombing. Ninguém é radicalizado da noite para o dia. A dissimulação é um pré-requisito essencial do controle emocional e mental.

3 – Exclusivismo

Se alguém chegar em você e te vender a ideia de que ”só aqui você terá o único caminho”, desconfie. Existem muitos grupos e organizações que dirão que só eles tem a verdade, só eles levam ao verdadeiro caminho e a verdadeira iluminação. Nesta linha de pensamento fica implícito a postura de nós versus eles, que já foi citada aqui, no artigo sobre como identificar discurso fascista em meios de Mão Esquerda. Qualquer pessoa, grupo ou local que quiser te alienar usará o esquema nós versus eles para distorcer sua percepção de mundo. E nisso entramos também no próximo item.

4- Controle de informação

É através das informações que possuímos e que são disponibilizadas para nós que tanto a nossa percepção de mundo quanto a nossa opinião sobre os mais diversos tópicos é construída. Controlar informação, por isso, é uma das formas mais fáceis e eficientes de controlar pessoas. Em dinâmicas de controle em cultos qualquer informação vinda do exterior e que possa ir contra o que é passado internamente é considerada como má. Dentro do controle mental não pode existir nada que quebre a visão central que é passada e reforçada, então podar ou cercear opiniões ou fontes de informação externa e dissonantes são comuns.

5 – Comunicação triangular

Incluso no controle e na manipulação de informação existe a comunicação triangular, ou triangulação narcisista. Enquanto o controle de informação por si só muitas vezes tem o seu maior foco em controlar o que vem de fora, a triangulação manipula geralmente de forma mais interna.

Nela temos a criação de uma falsa percepção entre as pessoas de um mesmo grupo com o objetivo de as dividir ou de fazê-las estar umas contra as outras. Ela é geralmente feita por um único manipulador, mas em determinados grupos figuras de liderança unidas podem usar essa tática para enfraquecer as relações de confiança entre as pessoas, tornando assim todo o grupo dependente apenas deles. Esses líderes irão espalhar boatos e mentiras entre as pessoas de forma que elas desconfiem umas das outras, se reportando apenas a eles e não conversando entre si.

Desta forma, com os participantes do grupo isolados uns dos outros, se torna mais fácil abusar de cada indivíduo separadamente. Afinal, se as pessoas não conversam entre si, é improvável que conectem pontos, entendam o que realmente está acontecendo, desmascarem mentiras e denunciem os abusadores. Um grupo desunido é muito mais fácil de explorar do que um grupo unido. A triangulação também é usada para desviar focos de tensão para outros lugares em momentos de crise, criar novos conflitos que tirem a atenção de um problema original e esconder culpados com a eleição de bodes expiatórios, utilizando aqui novamente a abordagem do nós versus eles.

6 – Controle de relações pessoais

Enquanto a triangulação controla e manipula as relações internas de um grupo, o controle de relações externas também é encontrado em diversos tipos de culto. Se você está com alguém, ou em algum grupo, que aos poucos vai minando seu contato com pessoas externas, tome muito cuidado. Te isolar e fazer com que sua rede de apoio conte apenas com uma única figura ou com o grupo em questão te coloca em uma posição vulnerável. Principalmente se, aos poucos, forem te passando a ideia de esquecer a pessoa que você foi antes para se tornar uma nova pessoa dentro do grupo.

7- Intimidação

Preste atenção se, dentro de um grupo ou perto de alguma pessoa, existe a sensação de temor contra consequências ou conflitos caso algo seja questionado. Caso você seja isolado, ridicularizado, pressionado ou acusado por fazer perguntas ou se opor a algo você está sendo intimidado a se submeter.

8- Estruturas de delação

Dentro de cultos é comum que se as pessoas sejam encorajadas a vigiar umas as outras. Assim, caso algum comportamento de resistência seja identificado, os próprios integrantes do grupo denunciarão uns aos outros para as lideranças, geralmente de forma confidencial. Isto cria um sentimento constante de medo que inibe qualquer pensamento dissonante e triangula as relações, fazendo com que toda informação e poder se concentre nos poucos indivíduos que de fato controlam o grupo.

9 – Controle do tempo

Muitas técnicas de controle mental incluem manter seus alvos ocupados de tal forma que não possam perceber ou questionar o ambiente ao seu redor. Se você ficar perdido demais em reuniões e atividades até se sentir exausto, sem conseguir pensar ou analisar nada, cuidado. Se você sempre tem que pular de atividade em atividade, sempre com algum drama novo para distrair seu foco, nunca conseguindo falar direito com outras pessoas, ou mesmo com os líderes, porque ninguém nunca tem tempo, você está em uma dinâmica de controle de tempo. Você ficará correndo em círculos e mais círculos até conseguir se afastar do grupo, onde perceberá o contraste claro entre a vida normal e a dinâmica do grupo, que parecerá ter se passado em uma completa outra realidade, destacada do tempo e do espaço.

10 – Linguagem com excesso de jargões

Cultos e grupos extremistas geralmente tem suas próprias linguagens, com palavras chave e jargões que só são compreendidos plenamente por seus integrantes. Isso evita que ”ouvidos comuns” entendam o que realmente está sendo dito e produz uma sensação de seletividade e exclusividade entre seus participantes. Através deste controle da linguagem também é possível ameaçar indivíduos de forma sutil, onde o ameaçado saberá o que está acontecendo, mas as pessoas ao redor não.

Aqui entra a política de dog whistle, ou apitos de cachorro, muito usados pela extrema direita, onde determinadas palavras e signos visuais são usados como forma de intimidar grupos específicos sem que as pessoas que não fazem parte daqueles grupos entendam o que realmente está acontecendo. E caso alguém do grupo afetado tente denunciar, ou reaja contra, possa se dizer que aquela pessoa está ”vendo coisas onde não existe” ou ”fazendo caso”. É uma forma velada de intimidação e coação psicológica.

11 – Criação de inimigos em comum

Nunca é demais alertar contra a tática do nós versus eles. Cultos geralmente elegem inimigos para unir as pessoas contra um alvo em comum. Isso pode ser feito para distorcer a percepção de seus integrantes contra pessoas externas, que seriam colocadas como o outro, mas também para criar um novo ponto de foco durante uma crise e para criar bodes expiatórios que sejam acusados no lugar dos verdadeiros abusadores.

Cuidado com aquele grupo, ou coven, cujos líderes dizem, a cada problema interno que surge, que o grupo está sob o ataque espiritual de uma figura externa. O hábito de constantemente jogar o peso da culpa em um alvo externo a cada adversidade indica que o foco está sendo desviado do real problema. Não entre na narrativa de guerras mágicas ou espirituais entre grupos e indivíduos. Sempre investigue quais agendas e interesses individuais estão sendo servidos ou beneficiados através do incentivo ao conflito e a paranoia.

12- Líderes que enfatizam demais que ”nunca fariam isso”

Com extrema frequência as pessoas que mais insistem que nunca teriam uma determinada atitude são aquelas que com mais assiduidade a praticam. Fique atento quando alguém, ou alguma figura de liderança em um grupo, repete um pouco demais que nunca faria uma determinada coisa ou teria um determinado comportamento que é claramente errado. Se a pessoa se defende em excesso de um crime não cometido pode se tratar de uma atitude compensatória para algo em que ela na verdade possui culpa. Ouça cada ”mas eu nunca te trairia/te manipularia” como uma abertura para aquela possibilidade.

13 – Autoengano

Acreditar que só pessoas ignorantes ou fracas psicologicamente poderiam ser vítimas de manipulações, relacionamentos abusivos e cultos beneficia apenas abusadores. Apesar dos estereótipos que temos sobre o assunto, narcisistas e manipuladores estudam muito bem as pessoas com as quais entram em contato e fazem seu trabalho de maneira lenta e cuidadosa, de forma que nunca se levantem suspeitas. Quando você notar, já estará envolvido demais. E a própria vergonha que socialmente se imputa a vítimas de abuso muitas vezes impede que essas vítimas consigam assumir para si mesmas o que está acontecendo, dificultando tanto suas recuperações quanto a denúncia de seus abusadores.

Controle e manipulações psicológicas são crimes silenciosos que florescem pela crença social de que o culpado é quem sofreu o abuso, não o abusador em si. Antes de dizer que ”isso nunca aconteceria comigo” e que ”apenas um idiota cairia nisso” saiba que nenhuma situação começa pelo seu extremo e que todos nós, começando por um discurso inicialmente amoroso e razoável, podemos nos enganar. Afinal, a pessoa mais fácil de se manipular é aquela se julga imune ao tema.

E agora?

Se você é um iniciante, não tenha pressa para encontrar um grupo. Procure estudar por conta própria antes. Com cuidado, com calma. Pesquise a história das principais ordens e organizações dentro da Mão Esquerda com seus líderes e principais figuras antes de pensar em qualquer tipo de afiliação. Visite seus sites e canais de comunicação, fique de olho em seus materiais e leia os livros lançados por seus integrantes antes de se aproximar para ter uma ideia do que você poderá encontrar.

Vá em reuniões abertas como um observador. Escute muito mais do que fale. Se eduque em como reconhecer ideologias extremistas, táticas de manipulação e dog whistles em discursos e textos. Fique atento a transparência e a idoneidade daqueles que se apresentarem a você. Quanto mais conhecimento prévio você tiver, menos vulnerável você será.

Vale também ressaltar que nenhuma ordem responsável admite menores de idade em seu corpo de integrantes por questões obvias de segurança. Se você ainda é muito jovem, seu maior compromisso deve ser com a sua educação e desenvolvimentos pessoais. Isso te dará mais base e consciência sobre o que procurar, se você o quiser, futuramente. Mas saiba que, por motivos legais, nenhuma ordem deve te admitir até que você seja no mínimo civicamente responsável por si próprio.

As mesmas recomendações valem para Sacerdotes que atuam por conta própria. Desconfie, se você for menor de idade, de quaisquer Sacerdotes que se aproximem de você com muitas promessas e muito interesse. Propostas para que você ceda fotos do seu corpo devem ser descartadas, assim como iniciações que contenham quaisquer atos sexuais. Trabalhos espirituais que prometam grande fama, fortuna e amor imediatos por altas quantias de dinheiro são estelionato. E se você receber qualquer tentativa de assédio, assim como intimidações com base em trabalhos destrutivos, denuncie a polícia. A ameaça supersticiosa se enquadra no artigo 147 do nosso Código Penal como crime, podendo incluir ainda outros artigos se esta for meio para realização de constrangimento ilegal, roubo, extorsão ou estupro.

Outro ponto importante de se observar, principalmente em redes sociais, são as figuras que vivem com base em criar drama e conflito constantes com outros. Muitos Sacerdotes, bruxos e magos diversos surgem e se mantém em relevância dependendo dos conflitos que eles criam com outras pessoas. Se você vir algum drama entre grandes perfis nas redes sociais repare sempre se uma das partes, ou ambas, estão no momento vendendo cursos. Ou se são pessoas que andavam meio esquecidas e agora, por causa da briga, estão voltando a ter algum destaque. Não é incomum inimizades se criarem só por ibope ou para a divulgação do curso caro de alguém depois. Seja seletivo com o conteúdo que você consome e com quais figurinhas você segue. Nunca coloque ninguém em um pedestal. Lembre-se que Lúcifer simboliza aquele que quebra estruturas de manipulação e de poder totalitários

e nunca se curve diante de ninguém

Até mais!

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Primeiros passos – Como identificar discurso fascista dentro da Mão Esquerda

Fonte: Arquivo pessoal

Começar a estudar sobre espiritualidade, principalmente no que se refere as vertentes pertencentes a Mão Esquerda, não possuindo conjuntamente educação política pode te fazer, sem saber, absorver conteúdos e ideias extremistas. Por isto, aqui no blog, deixarei este pequeno guia de como identificar ideias e discursos fascistas em textos, livros ou falas dos autores do nosso nicho. Guarde as informações aqui contidas de forma vívida em sua mente e amplie sua educação para além daquilo que aqui for apresentado.

O que é o fascismo

Quando falamos de fascismo estamos falando, por definição, de uma ideologia política baseada no ultranacionalismo e no autoritarismo. Ela se caracteriza pelo uso de poder ditatorial, repressão da sua oposição através de força militar e de uma forte arregimentação tanto da sociedade quanto da economia. Atualmente o fascismo se divide e se diversifica entre os diversos ramos dos movimentos da extrema-direita. Porém, seus pontos vitais sempre são facilmente identificáveis.

Neles temos a presença constante de um nacionalismo extremo, desprezo pela liberdade política e pela democracia, a crença de que existe uma elite social natural e a defesa dessa elite acima do bem estar comum. Assim como encontramos uma constante preocupação oriunda da ideia de que existe um declínio moral e cultural ocorrendo na sociedade, com a glorificação de um passado mítico, da violência e do totalitarismo como fatores redentores. O fascismo, economicamente, defende a autarquia. Se opondo tradicionalmente ao liberalismo e ideologicamente ao comunismo, ao socialismo e ao anarquismo.

Indo por partes em seu discurso, temos:

1 – O estabelecimento de um passado mítico

A ideologia fascista constantemente invoca a ideia de que existiu um passado puro e moralmente digno, que foi tragicamente destruído pela corrupção ou decadência trazido por aquilo que é considerado diferente e externo. Aqui temos as ideias de pureza racial, assim como as ideias de pureza religiosa e cultural. O medo da diferença neste item e nos próximos é crucial. O culto a tradição e a rejeição a tudo que é considerado moderno só pode existir através da imposição do temor contra o outro. Assim como contra tudo que é considerado externo, diferente e desconhecido.

2 – O ultranacionalismo

Tendo estabelecido uma noção romântica de passado, os mitos sobre um possível renascimento nacional se tornam possíveis. Aqui a noção de nação é passada como se fosse uma entidade única e orgânica, que une as pessoas em função da sua ancestralidade em comum. Então, após a noção da pureza perdida de um tempo passado, o fascismo cria um senso de identidade tribal exaltando os conceitos de raça e ancestralidade como base para um novo sentido de unidade, força e pureza.

3 – A natureza da hierarquia

No próximo passo do pensamento fascista temos hierarquias sociais que são impostas pela própria natureza, perante a superioridade moral de seus indivíduos. A ideia do passado perdido e da tribo se une a noção de superioridade a ser resgatada como um direito de nascença. Isso torna a noção da igualdade, dentro da lógica fascista, como contrária as próprias leis do mundo natural que coloca certos indivíduos espontaneamente acima dos outros. É comum vermos a noção de que homens estão acima das mulheres por natureza intrínseca, por exemplo. Assim como a ideia de que os membros de determinadas nações ou culturas estão acima do resto do mundo e, por causa disso, deveriam governar por direito.

4 – A vitimização

Seguindo então a lógica fascista, as classes e indivíduos dominantes seriam vitimados ao serem obrigados a compartilharem direitos a cidadania e poder social com grupos externos ou minoritários. Aqui entram as acusações de que determinados grupos não são dignos de assistência, ajuda ou acesso a recursos sociais. Nisto temos o ataque e a retirada da humanidade a qualquer grupo considerado externo ao grupo dominante. O que é perigoso para todos que são tidos, por qualquer razão, como diferentes do que é imposto pela norma. Essas diferenças podem ser étnicas, religiosas, culturais ou ideológicas.

5 – O apelo ao irreal

Nisto, o fascismo substitui o diálogo fundamentado, o livre acesso a informação e a educação por apelos emocionais que, quando bem sucedidos, incutem temor e raiva, deixando seus ouvintes com a vívida sensação de perca e de desestabilização. O objetivo é criar o sentimento do nós versus eles para formar um quadro de ressentimento e desconfiança contra aqueles que são colocados no posto de serem os outros, os diferentes, os inimigos.

É nisto que o discurso fascista procura desvalorizar a educação. Se você não tem acesso a diferentes perspectivas, a pluralidade de ideias e a especialização que a educação permite você não conseguirá notar as falhas no pensamento que te é apresentado e só te sobrará uma visão exclusivista, alheia a qualquer descrição precisa da própria realidade. Teorias da conspiração cada vez mais alarmantes são passadas no lugar de análises racionais sobre mazelas sociais com o alerta de que você não poderia procurar a averiguação daqueles fatos em locais externos por eles não serem confiáveis, o que te radicaliza, poda e distorce a sua visão e percepção de mundo.

6 – O apelo a ansiedade sexual

Como uma ideologia política que coloca a família nuclear e patriarcal como base temos no fascismo também o pânico natural contra tudo que se desvia desse arranjo. E é importante notar que este pânico é gerado principalmente contra tudo que ameace os papéis masculinos tradicionais ou questionem o local do homem enquanto sujeito no mundo. Acusações contra a imoralidade sexual, principalmente contra a liberdade sexual feminina, surgem junto a homofobia e a transfobia com muita frequência. É comum que exista um culto a masculinidade ou, no mínimo, a exaltação a qualidades tidas como viris em oposição as tidas como femininas dentro deste tópico. A juventude é glorificada e tida como precisando ser purificada da promiscuidade da cultura moderna, com foco na formação de núcleos familiares que tenham como principal função a reprodução para o nascimento de indivíduos superiores. É comum, por causa disso, o cerceamento da liberdade reprodutiva feminina.

7 – O totalitarismo

Em um estado democrático, leis são tidas como instrumentos para garantir que todos os cidadãos de uma sociedade sejam tratados de forma igual e justa, garantindo o respeito mútuo entre as pessoas. Por outro lado, perante o fascismo, a igualdade é um conceito irreconciliável. As leis, então, são feitas para separar aqueles que são tidos como a elite superior, e por isso governantes naturais por direito, daqueles que devem apenas servir. Um novo Estado totalitário, composto pela elite e encabeçado por um líder carismático que possua alto apelo popular, é apresentado como solução a todos os problemas. Com o uso de forte repressão militar como um meio para perseguir, segregar e eliminar qualquer oposição ou pensamento dissidente.

8 – E a violência como redentora, junto a formação do Novo Homem

A violência e a retaliação, dentro da visão fascista, é um direito dos fortes sobre os fracos. Aqui temos a glorificação da guerra, e da figura do guerreiro, como uma forma de compensação. Se você sente um profundo medo do outro, acredita que sua cultura e sua superioridade foram retirados de você, e te fazem acreditar que o uso de força bruta contra os seus inimigos irá provar o quanto você é sim superior o uso dessa força se torna um escape compensatório para todas as inseguranças que colocaram dentro de você. E fazer parte de uma grande unidade social violenta pode ser uma retomada para o senso de poder que pretensamente lhe foi tomado.

É comum, dentro do imaginário fascista, que após a instituição do novo Estado totalitário e do domínio social ser garantido, surja o conceito utópico do Novo Homem. Um novo tipo de ser humano, ideal, superior e forte, que substitua e sobrepuje a condição humana atual. Esse conceito não é exclusivo do fascismo, sendo usado também em outras vertentes ideológicas e religiosas. Mas nele temos a ideia deste novo sujeito sendo especificamente imune a suposta mentalidade de rebanho das sociedades atuais, repudiando as normas, sendo mestre de si mesmo e capaz de iniciar uma nova era humana. Este ser, perante o fascismo, é uma figura de ação, viril e máscula. Vindo ao mundo geralmente através de processos de eugenia. Podendo ser intercambiável, em algumas interpretações, com o Novo Homem transumanista, que aprimora a humanidade unindo o biológico ao cibernético.

Agora que já vimos os principais pontos do discurso e da ideologia fascista, como os reconhecer?

Em meios religiosos e esotéricos é raro que discursos políticos sejam apresentados como tal. Eles são diluídos, disfarçados e suavizados como conceitos espirituais. O intuito é que você não encare nada como abertamente político e sim como uma questão de crença. Religiões e formas de culto, assim, são meios sutis mas muito eficientes de doutrinação tanto sobre pequenos grupos quanto também sobre grandes massas.

Apesar de ser fácil achar críticas e questionamentos referentes a isso em meios esotéricos e espiritualistas, muito para criticar especificamente o cristianismo, falta a noção de que toda crença espiritual pode trazer em si pontos ideológicos políticos, e que isso inclui o neopaganismo, o ocultismo e a Mão Esquerda.

A presença da extrema-direita no ocultismo e no esoterismo está longe de ser um fenômeno recente. Teorias da conspiração clássicas oriundas do nazismo, discursos que promovem noções de eugenia e revisionismo histórico para criar conceitos de passado mítico são comuns em diversas vertentes, nunca sendo combatidos ou desmascarados justamente pelo verniz de crença espiritual que carregam.

Dentro do neopaganismo nórdico, por exemplo, a presença da extrema-direita é marcante através da Ariosofia de Guido Von List e de Jörg Lanz von Liebenfels. A Armanen-Orden, que cuida do legado intelectual de Von List, segue ativa e bem estabelecida até hoje. Dentro da Mão Esquerda, o Satanismo possui diversas organizações abertamente alinhadas ao fascismo como a ONA (Order of Nine Angles), que carrega dentro do seu corpo de crença o incentivo ao sacrifício humano, ou assassinato ritual, como um meio de eliminar aqueles que são considerados como inferiores e mais fracos. Mas nem todas as organizações e figuras são tão obvias como as aqui citadas.

Então, antes de pegar qualquer texto, livro ou material organizacional procure o histórico de seus autores e participantes. Quem eles são? Qual é a jornada deles no meio? Com quem eles se aliam? Eles se baseiam e disponibilizam quais fontes e quais referências em seus trabalhos? Procure informações, cheque suas associações, as entrevistas que já deram, qual o rosto que eles tem. Se for difícil saber quem um autor é e de onde veio fique alerta. Nunca coloque figura alguma em um pedestal.

Perceba, nos discursos e textos, se qualquer um dos oito pontos da ideologia fascista aqui mostrados são citados, direta ou indiretamente. A maior parte dos nomes da Mão Esquerda se colocam como sendo contrários a qualquer tipo de política autoritária ou preconceito, no entanto, nas mesmas obras onde isto é dito você pode encontrar:

  • Noções de elite natural: Se você já leu que satanistas ou luciferianos são superiores, moral ou intrinsecamente, você já se deparou com o conceito de elite natural. Principalmente se, em comparação, o resto da sociedade é retratado como inferior. Colocações como chamar pessoas de ”animais de rebanho”, possuidoras de uma ”mentalidade de escravo”, para colocar satanistas e luciferianos como predadores versus presas são pertencentes ao velho discurso de nós os superiores versus o outro inferior. E apresentam nada mais do que uma dicotomia rasa e sem nenhuma profundidade em relação ao mundo, com o propósito de criar uma sensação de superioridade imaginária e distorcida.
  • A defesa do fim do ”mito da igualdade”: Se você já leu alguma variante desta frase, principalmente seguido por alguma referência ao ”machado da força” (que remete ao símbolo do fasces romano), você entrou diretamente no ponto da vitimização. Direitos sociais não nivelam nenhuma sociedade por baixo. Acreditar que os fortes são feitos de vítimas por existirem leis que garantam a igualdade social entre todos é um discurso de velho e preguiçoso contra minorias sociais que se apoia no irreal. Principalmente se este discurso estiver defendendo a criação de barreiras intransponíveis entre os pretensamente fortes e aqueles que eles consideram fracos, com o estabelecimento de uma nova ordem, onde também entramos no ponto do totalitarismo.
  • ”Satanistas/Luciferianos nascem, não se fazem”: Se você já leu isso, você já leu sobre eugenia e sobre a criação do Novo Homem. A noção de procriar uma nova raça foi largamente usada pelo nazismo e ainda é divulgada em muitos meios de Mão Esquerda aliados a extrema-direita, substituindo apenas o termo ”nova raça ariana” por variantes como ”nova raça satânica” e similares. Não compre nenhum discurso de que a humanidade está se tornando débil e frágil por causa de uma suposta degradação moral que amaldiçoa as novas gerações com patologias sociais e doenças hereditárias e que apenas satanistas ou luciferianos seriam livres da entropia que adoece as grandes massas, sendo assim aqueles que irão parir uma nova qualidade superior de seres humanos.
  • Permissividade com grupos assumidamente extremistas: Se você ver grupos como o ONA serem descritos como apenas controversos, porém revolucionários, fortes e grandiosos, você está consumindo informação de pessoas e grupos que são tolerantes as suas ideias. Nunca se sinta confortável se sentando na mesma mesa onde também estão pessoas que podem relativizar sacrifício humano, em prol da sua própria segurança.
  • Discursos moralistas com alto apelo a ansiedade sexual: Apesar da vasta maioria dos autores e grupos de Mão Esquerda se colocarem contra o discurso da mulher como sexo inferior, perceba se as mesmas pessoas que dizem ser contra a misoginia também falam sobre o único amor verdadeiro ser o gerador, entre um homem e uma mulher, com o conceito de que existe um processo evolutivo orgânico que está perdendo a qualidade aos poucos pela imoralidade da cultural atual. Aqui entramos novamente na eugenia. E se ela e o pânico moral são defendidos a posição da mulher naturalmente é reduzida. Termos como ”vulgaridade da escória” levantam alertas vermelhos. Assim como discursos de como a sexualidade deve ou não ser a fim de não conter ”a absurda vulgaridade e grosseria vista nas massas”. Existem muitos textos que começam louvando o poder sagrado feminino, contra o puritanismo religioso, e terminam criticando a liberdade sexual como uma promiscuidade causadora de vícios e decadência moral, não tendo lugar na vida do ”ser humano superior”.
  • E teorias da conspiração junto a distorção de fatos históricos: Se você já leu que Lúcifer é um antigo soberano extraterrestre que realizou experiências genéticas entre criaturas repitilianas intelectuais de Órion e seres humanos você já caiu no beco das teorias conspiratórias com fundo antissemita. Revisionismo histórico, principalmente sobre o período das Inquisições, devem levantar as suas suspeitas. Não absorva nenhum tipo de antissemitismo ou islamofobia sobre o falso pretexto de apenas criticar o monoteísmo.

Reconheci discurso fascista, e agora?

Avalie. Foi em um grupo? Então se retire. Foi em algum texto ou livro? Passe um bom pente fino em seu conteúdo. Existem autores que irão se dizer contra qualquer tipo de preconceito, totalitarismo e extremismo e três páginas depois defenderem todos os pontos da ideologia fascista como se estivessem num bingo. Existem outros que irão apenas gostar muito da ideia de nós os predadores versos as massas que são um pretenso rebanho e vão parar por aí. Esse discurso de predador versus presa é muito difundido inclusive em correntes vampíricas de espiritualidade predatória até como estética de nicho. Se atente ao nível real de desprezo contra o outro que é colocado e se outros pontos ideológicos também são incluídos.

Leia criticamente, questione e procure diversificar suas fontes. Existe muito mais dentro da Mão Esquerda do que as opiniões e as obras dos mesmos caras brancos e calvos de meia idade pra cima. Consuma conteúdo escrito e feito por pessoas negras, por mulheres e integrantes da comunidade lgbt. Aposte na pluralidade de ideias para enriquecer sua visão de mundo e nunca pare de crescer, se desenvolver e se educar.

Até mais!

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